
Quem se deslocava, horas antes da corrida, ao redor da Palha Blanco correu o risco de julgar que se tratava de apenas mais uma corrida. Trânsito por demais, com gente e mais gente nas imediações da praça. E se no fim-de-semana toda essa multidão estava em trânsito para o recinto da feira, ontem a Festa fez-se na praça. Filas nas bilheteiras, com várias gerações de aficionados a quererem assegurar um lugar. Mais filas para entrar em praça, que por entre conversas de expectativas comuns, tinham pressa em chegar às bancadas. E ao chegar ao interior do recinto, não havia dúvidas, “isto hoje vai encher!”
E encheu mesmo. Com poucas centenas de bilhetes por vender, encheu-se de público e de um ambiente fantástico, composto para algo extraordinariamente histórico e que se perspectivava em algo pouco palpável, para poder ser expresso com total realismo. Pois se há momentos em que se torna impossível ter distanciamento suficiente para descrever o que ali se viveu, hoje é um desses.
Ontem, a Palha Blanco, fez-se de uma data que resistirá a tudo, e a quem lá esteve. É uma daquelas datas que ultrapassa até o seu lado histórico. Daquelas que viverá no testemunho eterno, de uma história que se conta às gerações seguintes. Mas contá-la-á com orgulho, quem a viveu. Não há como ter explicação suficiente para este registo. Nem adjectivação que lhe faça justiça. Grande corrida, noite histórica, grande noite de toiros, inesquecível, noite de classe, a génese da arte, hino ao toureio, obra-prima, a ode de um mestre… usem-nas todas, e mais algumas, pois não lhe bastam.
Ontem, também a Palha Blanco deu um sinal importante aos empresários taurinos, de que há afición que baste para encher uma praça para assistir a toureio, mas ao toureio mesmo. Com sortes frontais, sem enganar as investidas aos toiros (que delícia), sem números equestres (dos mais simples aos mais bizarros) e com toiros ásperos no cartel. Com pouca intervenção de capotes, deixando o cavaleiro à mercê do seu talento, com lides variadas, que respeitam a matéria-prima que se enfrenta, que por serem sempre diferentes, têm lides diferentes, ajustadas, sem serem uma cópia exacta da anterior, respeitando as distâncias e empregando um cunho qualitativo, hoje ao alcance de poucos.
E quando António de Jesus de Castro Palha Ribeiro Telles surgiu em praça, envergava uma casaca bordada pela sua mãe, a maestria e o rigor bordados pelo seu pai, o tricórnio posto e o respeito de uma praça onde se respirava afición, liberta em aplausos de gratidão. E essa gratidão, bordou-a o talento de António Ribeiro Telles.
E para medir essa gratidão, não bastam os aplausos nas lides, pois após a última pega, ninguém arredou pé da Palha Blanco. Uma praça cheia, devota à maestria, à classe, à pureza de uma arte, que transcendeu tudo e todos, com um único protagonista, que respeita o público, que o admira e que o segue.
Quanto à matéria ganadera, dois exemplares voltaram para o campo. Foram eles o primeiro e o segundo hastados da noite, Victorino Martin e Murteira Grave, respectivamente.
Abriu a noite diante um Victorino com 450 Kg, salgado na pelagem, doseado em força, nobre o quanto baste, que não deu oportunidade de descanso ao Maestro da Torrinha, pois queria apanhá-lo em cada oportunidade. Num silêncio dilacerante na ferragem comprida, colocou três ferros, com os segundo e terceiro ferros a parecerem curtos, tal a forma frontal como abordou o oponente e cravou sem mácula. Nos curtos, ao segundo ferro, António Telles tratou de trazer o toiro toureado na garupa até aos médios, aí o estacionou e deu início ao recital de cravagens ao estribo, que se perpetuaria noite dentro. Novo ferro no corredor, aproveitando a nobreza do toiro, até à sorte cingida com que terminou a primeira lide.
De seguida surgiu um Murteira Grave, com 460Kg de peso, de pelagem negra e a distribuir bravura em cada mirada, que foi recebido com uma sorte gaiola que levantou a praça. O Grave arrancava com prontidão para cada sorte, bastando-lhe o cite com a voz, provocando a ferragem comprida de poder a poder, e com emoção, nos médios. Ainda o grave, que a esta hora já pasta de novo na Galeana, está para perceber porque a banda não tocou de imediato. Nos curtos, o desenho das sortes manteve-se, diante de um Grave sempre ligado e com sentido, com as colocações ao estribo como regra e lei, deixando a Palha Blanco já rendida, e ainda só íamos na segunda lide.
E no terceiro da noite deu-se algo de histórico. O exemplar Ribeiro Telles tinha 480Kg, negro e de saída distraído, mas que se empregava para “comer”. Após a ferragem comprida pediu permissão ao inteligente para lidar a duo com o seu sobrinho Manuel. Autorização dada e Manuel Telles Bastos entra no ruedo, senhor de uma silhueta na montada de fazer inveja, com ambos a efectuarem a melhor lide a duo que alguma vez já assisti. Sincronização entre ambos sem nada que se possa apontar, e cada um dos cavaleiros, António e Manuel, cravaram três ferros ao estribo, com o hastado a partir sempre para colher e com a Palha Blanco de pé.
O quarto foi um Pinto Barreiros com 485Kg que substituiu o Vale Sorraia que surgiu tocado em praça. Nova lide a duo, desta feita com o sobrinho João. Não foi uma lide a duo invulgar. O oponente de pelagem castanha foi reservado, parco em força e cedo desistiu do confronto. António Telles e João Telles Jr cumpriram a função.
O quinto tinha 505Kg, proveniente de Vale Sorraia e de pelagem salgada. Mostrava-se distraído, como se não estivesse no ruedo, tapava-se, mas se lhe passassem à frente adiantava-se para fazer mal. No segundo curto António Telles percebeu-lhe as intenções, deu-lhe a crença natural e sacou-lhe uma investida mais condicente. A partir daqui normalizou-se a lide, com a selecção de terrenos a ser extremamente cuidadosa e criteriosa, com Telles a partir para o oponente, deixando a ferragem sempre de cima para baixo.
Fechou a noite diante de um Passanha de 515Kg, que surgiu codicioso, de rabo arqueado e a direito para a montada. António Telles apanhou-o de imediato, mediu-lhe as intenções, trouxe-o para os médios, onde o dobrou e preparou a sorte. O resto? Bem, o resto ficará para sempre na memória, pois Telles fez o favor de encurtar as distâncias e só arrancar para o oponente, assim que este levantava a mão para dar o primeiro passo. Com o Passanha sempre a partir primeiro, colocou de alto a baixo uma série de quatro curtos, que enlouqueceram Vila Franca de Xira.
Quanto ao que se passou de seguida, por entre voltas, em ombros, e pedidos de voltas e mais voltas à Palha Blanco, ninguém, mas mesmo ninguém saiu da praça. Lágrimas pela trincheira. E foram tantos os minutos de gratidão mutua, que não há como explicar a emoção de um momento assim. O certo é que ninguém queria que acabasse.
Pelos Amadores de Vila Franca de Xira, o cabo Ricardo Castelo abriu a noite com uma pega rija, na córnea, ao primeiro intento. Bruno Casquinha fechou-se na córnea à segunda tentativa, com o Grave a sacudir e com o grupo a consumar de imediato. Pedro Castelo consumou à terceira tentativa. Rui Godinho fechou-se na córnea ao primeiro intento, vítima de um derrote bem lá no alto, imediatamente após a reunião, com o forcado quase a sair da cara, a aguentar o derrote. Ricardo Patusco consumou uma rija pega ao segundo intento, de reunião audível, sem humilhar, numa viagem dura até ao grupo. Fechou a corrida Márcio Francisco. Citou em silêncio, efectuou a chamada, alapou-se na córnea, com o toiro a desviar-se na viagem e com o grupo a fechar à primeira tentativa.
Uma nota muito especial para a dupla de campinos da noite. Foram eles João Inácio e Mário Oliveira, que a cavalo trataram da recolha das reses. Na última da noite, no Passanha, rejeitaram o auxilio dos cabrestos e com toureria, recolheram o exemplar, com a Palha Blanco a tudo absorver com gosto.
Grande noite de toiros na Palha Blanco!
Irrepetível? Espero bem que não!